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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Lacius - Desvendando [3:1]

O som irritante do despertador anunciava o amanhecer de um novo dia. Lúcio acordou meio agitado, pensando ter perdido a hora de levantar para ir ao colégio. Levantando às pressas, desceu correndo as escadas, quase se acidentando novamente. Para sorte dele, Mônica já estava acordada, preparando o café da manhã e o informou que ele ainda havia tempo suficiente para ele se arrumar e tomar o café.

- Tenha cuidado, meu filho! Não vá querer voltar para o hospital! Ainda são sete horas. Vá tomar banho e se arrumar. Já estou preparando seu café.
- Não posso me atrasar, mãe. Hoje é o primeiro dia de aula. Ainda tenho de passar na casa da Jaque para irmos juntos.
- Certo. Vou tentar adiantar aqui. Mas vê se não sai por aí correndo. Você acabou de sair do hospital.

Após o rápido banho, Lúcio voltou ao quarto para se arrumar. Pôs apressadamente o uniforme escolar, jogou o caderno e o livro misterioso dentro da mochila e saiu correndo do quarto. Lúcio havia dormido pensando naquele livro. Não poderia esquecê-lo em casa, já que tinha combinado com Esteves, na noite anterior, que iriam procurar o símbolo na biblioteca da escola. Jogou a mochila nas costas e desceu a escada aos pulos. Cinco minutos após sentar-se na mesa para o desjejum, Lúcio já encontra-se em frente à casa, fechando o portão, e indo em direção à casa de Jaqueline.

Lúcio morava a quatro quadras do colégio. A casa de Jaqueline ficava no meio do caminho, no fim de uma rua transversal à via principal. Alguns minutos após sair de casa, ele já estava tocando a campainha da porta da casa da namorada que, impressionantemente, já estava pronta para sair. Após um longo abraço e um beijo bem apaixonante, eles saem de mãos dadas em direção à escola.

No caminho, foram conversando sobre a conversa que Lúcio tivera com o doutor, sobre o presente que ele havia recebido e sobre as visitas que Jaqueline havia recebido em casa na noite anterior. Lúcio também contou à namorada sobre a conversa que tivera com Esteves na noite passada e sobre o que iriam fazer na hora do intervalo.

Estavam tão distraídos com a conversa que nem perceberam que tinham chegado à porta do colégio. Jaqueline percebeu então que, em nenhum momento, o namorado havia falado do pesadelo que vinha tendo desde o aniversário. Animada com a possibilidade de aquela fase ter passado, ela resolveu não comentar sobre o assunto e simplesmente perguntou, animada, para ele:

- Algum problema se eu for com vocês procurar esse tal livro?
- Claro que não, amor - responde Lúcio -. Eu estava contando com a sua ajuda.

Assim que entraram no corredor principal, o sinal que indicava o início da primeira aula tocou.

A primeira aula era de matemática. Ambos estavam na mesma turma. Entraram e encontraram Esteves, debruçado sobre a mesa, tirando um cochilo. Lúcio sentou-se entre o amigo e a namorada, assim poderia conversar com os dois sem chamar muita atenção. Ele deu uma batida no ombro do amigo que acordou reclamando por estar com muito sono. Porém, quando se deu conta que era Lúcio, ficou muito animado e com vontade de conversar. Não conseguira dormir direito pensando sobre o livro e ainda sentindo arrepios quando lembrava do choque que levara só de tocar nele.

Poucos instantes após o sinal tocar, o professor entra na sala e inicia a aula, interrompendo a conversa dos três. Teriam de deixar a conversa para depois da aula. O assunto do dia foi de Geometria. Muitos alunos acharam bastante interessante e estavam esperançosos de se darem bem nesta disciplina. Lúcio estava entusiasmado com todas as disciplinas deste ano letivo, mas, no momento, estava com dificuldades em prestar atenção à aula. A visita à biblioteca estava tomando totalmente a sua atenção.

Após estudar um pouco sobre as figuras planas e sobre polígonos regulares, iniciou imediatamente a aula de história. Os alunos nem tiveram tempo de respirar. O mundo pré-histórico e suas civilizações tomaram conta da aula. Apesar de Margareth ser uma excelente professora, Jaqueline não conseguia entender metade das coisas que ela estava falando. Nunca fora boa com histórias e parece que não havia dormido direito, preocupada com o namorado. Metade da manhã havia passado e ela ainda estava pensando sobre os problemas de Lúcio. Será que a conversa com o doutor e tudo o que ele lembrou naquela conversa dentro da sala o havia curado?

Em meio aos pensamentos, Jaqueline desperta com o som da campainha que indicava o intervalo. Lúcio já estava com a mochila arrumada atrás das costas, estendendo a mão para a namorada se levantar.

- Vamos, amor. Temos somente meia hora até a aula de física começar. - Lúcio a apressa, carinhosamente.
- Vamos, seus molengas. - grita Esteves, já na porta da sala. Ninguém viu como ele foi parar lá tão rápido. Estava muito empolgado para encontrar o livro.
- Já estou indo - responde Jaquieline -. Acho que cochilei aqui na cadeira.

Os três alunos saíram correndo em direção à biblioteca. Fuçaram quase todas as estantes até acharem o livro numa sessão de literatura antiga. O livro era bem velho, estava com muita poeira e parecia haver algumas páginas rasgadas. Imediatamente, Lúcio abriu a mochila e retirou o livro que ganhara de presente. Colocou os livros um ao lado do outro para compararem os símbolos. Apesar da capa estar bem gasta, dava claramente para ver que os símbolos eram bem parecidos. Além do símbolo, o título, em letras imensas, o chamara a atenção: A maior guerra do Lácio.

O sinal que avisava que a última aula estava começando acabara de tocar. Lúcio pegou o livro e foi ao balcão fazer o empréstimo. Pelo que ele pode notar, o livro não havia sido emprestado muitas vezes. Ele esticou o pescoço para olhar a ficha de empréstimos. Ele parecia ser era a segunda pessoa que pegava o livro emprestado desde que o livro chegara na escola. No ano anterior um aluno do primeiro ano também o tinha pego emprestado. Lúcio pegou rapidamente a ficha na mão da bibliotecária para assinar. Tinha de correr para não perder a última aula da manhã. Quando começou a assinar a folha, reparou no nome da outra pessoa que fez o empréstimo no ano anterior.

- Marcos? - fala assustado Lúcio, lendo o nome do primo na ficha.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Porque era ela Porque era eu - Prólogo

Essa é a primeira vez que escrevo algo e, talvez, seja a última, já que não pretendo estar nesse estado em que estou hoje, de novo.

Hoje é exatamente 2 de janeiro de 1991, a minha virada de ano não foi a das melhores, na verdade foi a pior que já tive. Aqui na Bahia, há a crença de que se a virada de ano for de um jeito o ano inteiro será assim; se isso for verdade mesmo, estou com sérios problemas. Não quero passar o ano inteiro sozinho, bêbado e fumando feito um louco.

Nunca quis isso pra mim, nunca sonhei com isso. Liberdade sim, mas solidão nunca! O que eu sempre desejei mesmo, com toda a minha força, foi estar com ela! Meu amor; minha vida; e ela se foi, antes mesmo que pudesse lhe desejar "Feliz Ano novo”! Ela sempre me deixa desde quando tínhamos 12 anos!

Hoje eu não entendo mais esse amor; não sei quem irá ler isso, mas se conseguir entender essa menina, por favor, me escreva e me explique, pois a minha certeza eterna é que não sei viver sem ela.

O amor quando é construído de uma amizade e vai se fortalecendo com os anos imprimi marcas em nós que demoram de ser apagadas e muitas vezes nunca deixam de existir. No fim de um relacionamento o que é pior são as lembranças que o outro deixa; a xícara do café, a música preferida, as piadas, os lugares freqüentados, a fragrância do perfume costumeiro, o cafuné, o sexo!

De tudo isso, é o mais doloroso; gostaria que fosse um chip no lugar do coração ou da memória e assim pudéssemos apagar todo e qualquer registro dos romances vividos e reenchê-los com novas histórias.
Assim, esqueceria bem mais rápido a Aline!

Erick Liverp

Ele amassou a folha e jogou no chão!

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

O Arqueiro - Calminghan [2:3]

Depois de uma rodada de cerveja de graça pelo “susto”, o Sr. Harris volta ao balcão mais sem graça do que já estava.

Sr. Harris – Desculpe por isso... Nossa cidade é bem pacata, mas essa menina quer porque quer mudar essa fama, com suas tentativas de fuga fajutas nos cavalos dos forasteiros. Você não ficou preocupado com o seu cavalo?

Arqueiro – Não.

Sr. Harris – Mas se fosse um ladrão de verdade, você podia tê-lo perdido.

Arqueiro – Provavelmente, não.

Sr. Harris – Como assim? Os ladrões de verdade não são tapados que nem essa menina doida.

Neste momento surge Anne Marrie descendo as escadas, com o semblante fechado e os cabelhos molhados.

Anne Marrie – Eu não sou tapada nada! Esse cavalo que é anormal.

O Arqueiro toma o último gole de cerveja do caneco e olha para a menina que falou de seu cavalo. Ele percebe que não era literalmente uma menina. Já era uma jovem, uns 14 anos, de estatura baixa e com os cabelos ruivos, um pouco acima dos ombros. Um olhar sério, que vislumbra o novo que o mundo afora oferece.

Anne Marrie – Ta me olhando por que forasteiro bobão? Nem se preocupa com seu cavalo... – Ela dá um sorriso sarcástico com o canto da boca, e depois se vira, sentando em um banco de uma das mesas, olhando para o forasteiro com desdém.

Arqueiro – Estou te olhando porque me deu vontade. E me preocupo com o meu cavalo, eu não me preocupo é com você.

A menina então muda rapidamente a expressão de deboche para uma cara fechada, de seriedade. O Sr. Harris dá um sorriso discreto, surpreso com a resposta do viajante. E então caminha até a cozinha, e fala com sua mulher.

Sr. Harris –Iolanda, esse forasteiro, sabe... Não estou certo se devemos hospedar ele aqui conosco. Sujeito é meio estranho.

Sra. Harris – Ora James, deixe de ser medroso. Ele não fez nada de estranho e ainda teve que aturar ter o cavalo quase roubado. Deixe o homem ter uma noite de sono comum e seguir sua vigem amanhã.

Sr. Harris – Você tem razão. Acho que o velho James aqui está ficando cansado.

Sra. Harris – Deixe disso homem. Agora vá para o balcão, atender o jovem e ficar de olho naquela pestinha.

Sr. Harris – Está bem. Vou lhe oferecer o quarto.

O Sr. Harris volta para o bar e começa a limpar o balcão. Enquanto se prepara para falar sobre o quarto, Anne Marrie solta mais uma pergunta.

Anne Marrie – Para onde você está indo, forasteiro.

Arqueiro – Eu não sei.

Anne Marrie – Como assim? Você não sabe nem para onde você vai? Deve ser doido que nem seu cavalo...

Arqueiro – Eu não sou doido, e nem o meu cavalo. Só não sei ao certo pra onde vou.

Anne Marrie – Me leve com você!

Sr. Harris – Ficou maluca de vez menina! Mas que idéia idiota essa sua de sair por aí pra conhecer o mundo. Você tem que arrumar um bom marido e se casar, formar uma família...

Arqueiro – Idéia idiota é? – Fala para o Sr. Harris, olhando para o caneco e agitando as poucas gotas de cerveja que restam.

Sr. Harris – Hã... Perdão senhor, não quis ofendê-lo. Mas é essa menina que fica com caraminholas na cabeça, deixando os pais preocupados. Ela deveria se comportar como uma menina normal.

Arqueiro – Ela é anormal por querer viajar por ai?

Sr. Harris – Não, não é isso. – Responde, cada vez mais sem graça - É que ela deveria se interessar por outras coisas. Coisas que as meninas da idade dela se interessam.

Anna Marrie então dá um sorriso discreto. Ninguém nunca a tinha apoiado em seu sonho. Logo depois, entram no bar os pais de Anne Marrie.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Lacius - O Presente [2:2]

Aquele objeto que agora estava nas mãos de Lúcio era o livro mais estranho que ele já havia visto. Era todo preto, feito de um material supostamente metálico, estranhamente leve e denso. No que parecia ser a capa, haviam umas inscrições estranhas que ele não conseguia identificar em que idioma poderia estar. E havia algo mais estranho ainda. Não importava a força que Lúcio colocasse, o livro não abria.

Passados uns oito ou nove minutos das tentativas frustradas de Lúcio para descobrir o conteúdo do livro, Esteves chega correndo à porta do quarto.

- Cara, vim o mais rápido que pude... - começa Esteves, quase sem ar - Estou louco para saber da conversa que você teve com o doutor lá... Você falou que precisava conversar... Ah, cara, como é que está? Melhor?

Esteves era a pessoa mais ansiosa que Lúcio já conhecera na vida. Bastava ficar nervoso que falava sem parar. Lúcio costumava ligar para ele dizendo ter algo importante para contar somente para que ele fosse rapidamente se encontrar com ele.

- Esteves... calma! Entra, senta e respira um pouco... - fala Lúcio, rapidamente, antes que o amigo tivesse um ataque de tanto falar.
- Estou bem - continua Lúcio - consegui lembrar de detalhes do meu sonho que nem sabia que existiam.
- Detalhes? Que detalhes? - Esteves interrompe o amigo que, já acostumado, continua a falar.
- Os animais estranhos que eu havia te falado que estavam no meu sonho... na verdade, não eram animais, eram seres humanos. Eles estavam me procurando. Eu estava fugindo com eles. Mas outros apareceram e começaram a nos perseguir. Eu tinha de fazer algo mas não sabia o que fazer. Todos ficavam olhando estranhamente para mim. Esperavam que eu fizesse algo...
- Cara, que estranho - Interrompe o amigo mais uma vez.
- Estranho? - fala Lúcio com um olhar em direção ao livro em cima da cama - Você acha isso estranho porque ainda não viu o presente que ganhei.

Lúcio pega o livro e entrega-o a Esteves que, ao tocar no livro, dá um pulo da cadeira onde está sentado, deixando o livro cair no chão.

- Ai! - grita Esteves, balançando a mão direita num gesto de dor.
- O que foi? - pergunta Lúcio espantado - O que houve?
- Levei um baita de um choque, cara. Isso não teve graça! Este era o presente estranho que você havia me falado? Se eu soubesse, não tinha vindo tão rápido.
- Você levou um choque? Como? Eu estava segurando o livro o tempo todo e não levei choque algum. Eu ia te mostrar o quão estranho é este livro que o doutor me deu para ler.
- Livro? - questiona Esteves, olhando com uma cara de desconfiança para o objeto caído perto da porta do quarto.

Vagarosamente, ele então se aproxima do livro que permanece fechado, do mesmo jeito que Lúcio havia o entregado. Abaixando-se lentamente, ele encosta rapidamente o dedo na superfície do livro, afastando-se tão rápido quanto encostara. Com o medo que estava sentindo, não se arriscaria segurar o livro e tomar outro choque daqueles.

Após umas três encostadas rápidas no livro, ele finalmente segura-o e levanta, deixando-o visível à luz. Esteves senta novamente na cadeira e fica analisando o livro, com Lúcio contando de quantas maneiras ele havia tentado abrí-lo e não conseguiu. A cada método que Lúcio falava, Estaves tentava fazer o mesmo, só para ter certeza que não funcionaria. A mão de esteves já estava roxa de tanto colocar força nas saliências da capa para tentar abrí-lo.

Já estava ficando muito tarde e Mônica havia informado pela segunda vez sobre o horário tardio e sobre as aulas matinais do dia seguinte. Esteves se despediu de Lúcio que estava cansado demais para acompanhá-lo até a porta e se despediu do amigo ali mesmo, deitado. O amigo, entendendo o cansaço de Lúcio, foi saindo do quarto, porém percebeu algo que o deixou intrigado. Ele estava vendo o reflexo do livro no espelho que ficava na parede do quarto. Ele não havia, até então, reparado no símbolo que estava na capa do livro. Virou-se rapidamente para ter certeza do que vira. Então, sorridente, fala para Lúcio que não estava entendendo a reação do amigo:

- Cara, sabe o símbolo que está aí na capa?
- Sim. É alguma língua estranha. - responde Lúcio intrigado - Você conhece?
- Já ví este símbolo antes. Você não adivinha onde.
- Onde? Fala logo.
- Na biblioteca da escola.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Distorção - Palavras não são o bastante [2]

Adam descreveu tudo o que tinha acontecido para Guilherme com uma enorme riqueza de detalhes. Foi como se ele estivesse vendo tudo de novo.

- Que história mais louca cara. - Afirmou Guilherme após ouvir tudo sem acreditar muito. - Isso só pode ter sido um pesadelo.
- Não foi um pesadelo! - Exclamou Adam preocupado.
- Não dá para acreditar em algo tão surreal Adam. Pelo visto aquela reportagem que eu lhe amostrei mexeu com você. - Justificou Guilherme.
- Esquece. - Respondeu Adam desapontado. - A propósito, como você me encontrou?
- Eu tinha marcado com o Márcio em frente ao mercado para entregar uns filmes que ele tinha me emprestado e depois decidimos caminhar na praia um pouco, já que não tinha nada pra fazer. Foi quando a gente viu você desacordado na areia. Então nós trouxemos você até sua casa. O Márcio teve que ir embora porque ele tinha outras coisas pra fazer. Aí eu disse pra ele que eu ia ficar mais um pouco, mas já faz uma hora que estou aqui. - Explicou Guilherme.
- Sabe Adam, senti você meio distante hoje o dia todo. Você está com algum problema?
- Sim, estou. - Respondeu Adam com a esperança de que seu amigo finalmente acreditasse nele.
- Tente me entender meu amigo, o que você contou não faz sentido algum. - Insistiu Guilherme se preparando para ir embora. - Eu realmente tenho que ir pra casa agora.
- Tá certo. - Murmurou Adam.
- Amanhã a gente se fala. - Afirmou Guilherme antes de sair.

Adam sabia que por mais que seu amigo se interessasse pelo sobrenatural, ele nunca acreditaria no que ele falou, pois era muito realista apesar de tudo. Ele precisava ver para crer. Pensando nisso, decidiu não falar mais nada sobre o assunto, pelo menos por enquanto. Precisava colocar as idéias no lugar, afinal seu dia não foi dos melhores.

A solidão nunca incomodou Adam como naquela noite. Após tomar um banho e comer algo, foi pesquisar mais sobre o caso do livro misterioso na internet. Talvez o que lhe aconteceu tivesse alguma ligação com aquela reportagem, pelo menos era isso que ele não cansava de dizer para si mesmo. Procurou por algum tempo, mas não encontrou nada, exceto a mesma reportagem que Guilherme havia lhe mostrado. Selecionou o seguinte trecho e imprimiu:

"Às vezes é necessário intervir no mundo deles, afinal nossos inimigos também fazem isso. Torna-se importante nos misturarmos a eles e ocultar nossas identidades, assim também como nossas missões. Até mesmo nós tememos o dia em que teremos que destruir o "fruto do caos". Este caminha sorrateiramente pela terra e talvez tenha assumido a forma de um deles. Nosso maior medo é presenciar o possível fim da mais perfeita obra do Criador."

Quem teria escrito aquilo? Quem era aquele cara que caminhou sobre as águas após abrir uma fenda no céu? O que era o “fruto do caos”? Adam tinha muitas perguntas, mas nenhuma resposta.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O Arqueiro - Calminghan [2:2]

Chega o dono da estalagem, o Sr. Harris. Sujeito baixinho, gordo e barbudo. Vendo uma cara nova em seu balcão, pergunta:

Sr. Harris – O que vai querer forasteiro?

Arqueiro – Uma cerveja.

O Sr. Harris vira de costas para atender ao pedido. Volta então com um caneco cheio de cerveja, que era fabricada na própria cidade.

Sr. Harris – Aqui está. E então, veio de carona com algum viajante ou tem seu próprio cavalo? – Pergunta com um sorriso de canto de boca, puxando assunto.

Arqueiro – Tenho meu cavalo. Por que quer saber isso? – Pergunta em tom sério, olhando para o caneco e agitando a bebiba dentro dele.

Sr. Harris – É que se fosse de carona, provavelmente seria certo que o senhor se hospedasse aqui... – Justifica a pergunta, respondendo sem graça ao forasteiro, e continua – E vindo com seu animal, talvez o senhor esteja de partida hoje mesmo...

Arqueiro – Pretendo ficar aqui uma noite. Por enquanto.

E então ambos ouvem o rincho de um cavalo vindo de fora dos portões da estalagem. Sr. Harris sai do balcão para ver do que se tratava, afinal não era nada comum na cidade se ouvir esses barulhos repentinos. Enquanto isso o Arqueiro se levantava calmamente, observando que a pessoa encapuzada já não se encontrava dentro do bar. Continua andando até o portão e pára atrás do Sr. Harris.

Sr. Harris – Mas o que é isso! – exclama surpreso.

A cena era de um cavalo branco, parado e tranqüilo, com o encapuzado caído em uma poça de lama do seu lado. Pelo tamanho da pessoa, Sr. Harris já sabe do que se trata, mas caminha em direção a misteriosa pessoa e puxa-lhe o capuz.

Sr. Harris – Mas só podia ser mesmo... A única pessoa esta cidade que de calma não possui nada!

E então, a menina, que estava toda suja dá um tapa no capuz, demonstrando toda a sua frustração pela sua tentativa de fuga totalmente desastrada. Seu nome era Anne Marrie, filha de um dos fazendeiros de Calminghan.

Sr. Harris – Você não se cansa dessa sua idéia maluca de fugir dessa cidade nos cavalos dos forasteiros?

Anne Marrie – Dessa vez teria dado certo! Mas quando tentei montar nesse cavalo ele se espichou todo e me jogou nesse seu “tapete marrom de boas-vindas”... – Falava chateada por mais um fracasso de suas tentativas de fuga.


Então aparece no porto também a esposa do Sr. Harris, a Sra. Iolanda Harris, uma velhinha bem simpática e sorridente.

Sra. Harris – Ora, mas Anne Marrie, sua menina levada... Veja só o que você aprontou dessa vez! Vamos, tire esse capuz e vá tomar um banho, enquanto eu procuro falar com seus pais das suas peripécias, hum...

Anne Marrie – Ta vendo, cavalo idiota... Muito obrigada! – Diz com uma voz em tom irritado.

Enquanto a mesma anda em direção ao portão do bar, o cavalo bate sua pata dianteira direita no solo, espalhando mais lama pelo capuz de Anee Marrie. Ela olha de volta para o cavalo com cara de má, mas decide entrar e obedecer a Sra. Harris.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Lacius - O Presente [2:1]

Já havia se passado cerca de trinta minutos desde que Lúcio entrara na sala do doutor. Após o último flashback, Lúcio parecia falar com mais convicção sobre tudo que estava lhe atormentando nas últimas duas semanas. Havia contado a Dr. Edgar mais detalhes do sonho que insistia em se repetir todos os dias desde que completara dezessete anos. Falou da multidão que estava perseguindo ele e todos os que o acompanhavam. Contou também da destruição que se espalhava por onde passavam. O mundo parecia estar um caos e todos ao redor dele, esperando que fizesse algo.

Dr. Edgar ouviu tudo o que o jovem Lúcio falou e ficou, durante algum tempo, pensando calado. Sua face demonstrava uma mistura de alegria, preocupação e dúvida. Em sua mente, várias perguntas estavam tentando ser respondidas. Após refletir bastante, levanta-se, vai em direção à sua maleta, em cima da estante da sala e, de dentro dela, tira um embrulho de presente. Ainda de costas para o garoto, ele diz:

- Lúcio, é fato que algo importante está acontecendo contigo. As pessoas do seu sonho te pedem ajuda porque você é uma pessoa especial. Você tenta fazer o bem para ajudar as pessoas. Foge da destruição. E está preocupado com suas responsabilidades. Isto está em seu subconsciente e está afetando o seu sono.

Voltando em direção à poltrona, ele senta-se com o presente em mãos e, olhando nos olhos de Lúcio, o entrega o pacote, dizendo:

- Aparentemente, está com muita coisa na cabeça. Está com mais responsabilidades e preocupado com isso. Aconselho que ocupe sua mente com outras coisas. Se você tirar as preocupações da cabeça, os pesadelos sumirão. Aqui está algo que talvez possa te ajudar a relaxar.

Lúcio pegou o embrulho e ambos se levantaram. Dr. Edgar o levou até a porta. Haviam passado cerca de quarenta minutos naquela sala. Mônica ainda estava sentada no banco. Jaqueline havia ido para casa. A mãe a ligara dizendo que precisava da ajuda dela em casa.

Mônica levou o filho para casa. Chegaram em casa dentro de uns vinte minutos.

Ao chegar em casa, Lúcio pegou o telefone e subiu correndo as escadas em direção ao quarto. Jogou o embrulho do presente em cima da escrivaninha e se jogou em cima da cama. Estava louco para falar com Jaqueline. Porém, na hora em que ele vai digitar o primeiro número, o telefone toca e ele imediatamente atende.

- Alô!? - Fala Lúcio, meio irritado por ter que esperar para falar com a namorada.
- Oi, cara. Liguei para o hospital, me informaram que você já tinha ido para casa! - Respondeu Esteves - Como você está?
- Tô bem. Tive uma conversa com um psicólogo. Foi uma coisa muito estranha. A gente precisa conversar. Pode vir aqui?
- Claro. Em vinte minutos eu apareço.
- Até mais.

Assim que acabou de se despedir de Esteves, Lúcio já estava com os dedos engatilhados nas teclas do telefone. Não demorou muito, uma voz doce e suave falou do outro lado da linha:

- Amor!!! - Jaqueline atende o telefone numa euforia, deixando cair o copo que estava lavando - Como você está?
- Oi amor. Estou bem. Com saudades de você.
- Eu também, amor. Precisei vir para casa. Teremos visitas, hoje à noite. Estou ajudando a arrumar a casa.
- Que chato... queria te ver...
- É amor, infelizmente, hoje não vai dar. Tenho de ficar aqui para receber o pessoal.
- Tá certo, amor - diz Esteves, com uma voz de decepção.
- E aí, como foi lá com o psicólogo? O que ele falou?
- Você não vai acreditar. Foi muito estranho o que aconteceu lá. Preciso falar contigo pessoalmente. Amanhã, antes da aula, eu te conto. Certo?
- Certo, amor. Você passa aqui para irmos juntos?
- Claro, amor!
- Tchau, então, gatinho. Tenho de terminar isso aqui. Beijos!
- Beijão, amor. Até amanhã!

E, desligando o telefone, volta-se para o embrulho e pega-o. Após se jogar novamente na cama, abre rapidamente a embalagem e, de dentro, tira um objeto com um aspecto muito antigo. Com um olhar curioso, Lúcio vai virando o objeto retangular, analisando o estranho formato. Após algum tempo olhando, ele finalmente repara nos detalhes das bordas do estranho objeto.

- Um Livro!

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Distorção - Fenda celeste [1:2]

Na biblioteca, Guilherme mostra uma matéria de dezoito anos atrás para Adam, que falava sobre um misterioso livro que foi encontrado chamado de “Distorção” e depois outra que falava sobre o assassinato dos quatro estudiosos que decifraram o livro, sendo um deles Matthew Strauss. Adam fica impressionado com tudo o que lê e momentaneamente se lembra do homem que o olhara fixamente no ônibus. O dia estava meio agitado hoje, pensou ele.

Quando se dão conta do horário, ambos decidem continuar com a conversa depois, afinal não seria interessante perder a aula da matéria seguinte, considerada a mais difícil do semestre.

Assim que acabaram as aulas, Adam decidiu voltar para casa andando, estava a fim de pensar um pouco e olhar para o mar. Estava se sentindo meio solitário, talvez por morar sozinho. Não sabia ao certo o que estava sentindo, às vezes ficava triste repentinamente. Por um momento se lembrou da sua ex-namorada, de quando terminou com ela no ano passado por uma briga que hoje considerava sem importância. Pensou em que os seus pais poderiam estar fazendo agora e em muitas outras coisas. Decidiu parar um pouco e sentar de frente para o mar, gostava dos respingos da água batendo em seu corpo ao rolar das ondas. A tarde já estava chegando ao fim, mas ele nem se importou. Começou a pensar na conversa com Guilherme e no que ele lhe mostrou, tudo parecia muito real, ele sentia que era. Tinha algo de sobrenatural naquela história e mesmo tendo certo fascínio pelo assunto, sentia um pouco de medo.

Começou a ventar forte e Adam olhava para o horizonte, quando de repente viu algo mais preocupante ainda. Não acreditava no que via, o céu estava “rasgado” e era dali que vinha um vento forte. Lentamente algo saia da fenda, era uma pessoa, poderia jurar que era uma pessoa se pelo menos estivesse mais perto. Suas dúvidas logo foram sanadas quando o misterioso indivíduo veio caminhando sobre as águas até ele. Seu olhar era frio e sombrio. Adam tremia de cima a baixo e não conseguia se mexer. Tudo ficou escuro e o ar estava pesado, não conseguia respirar, estava sufocando, sentia que ia morrer, quando acordou em seu quarto.

- Até que enfim acordou Adam! - Exclamou Guilherme levantando rápido de uma cadeira. - O que foi que aconteceu lá na praia?

Por um momento Adam tinha pensado que era tudo um pesadelo, até ouvir a voz de Guilherme. Estava preocupado, assustado, sem palavras.

- Adam, você está bem? Fala alguma coisa! - Insistiu Guilherme.
- Você não vai acreditar no que aconteceu. - Sussurrou Adam pálido.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O Arqueiro - Calminghan [2:1]

Finalmente ele avista toda a cidade. Não era a maior que ele já tinha visto, muito pelo contrário. Era pequena e humilde, uma típica cidade pacata no interior, margeada por uma floresta, colinas, e ao lado oposto um rio de pequeno porte, mas que era grande o suficiente para limitá-la.

Descendo devagar o pequeno morro, começa a ser avistado pelos habitantes da cidade, em sua maioria fazendeiros e crianças que estavam brincando. Alguns acenam para ele dando as boas vindas ao forasteiro. Era uma cidade receptiva ao contrário de outras espalhadas pelo condado.

Ele apenas observa, montado em seu cavalo que anda lentamente, debaixo do sol brilhante e latente. Pára perto de um homem que está arando a terra para o início da plantação de trigo em sua fazenda:

Fazendeiro – Ora, ora... Um forasteiro na pacata Calminghan... O que o trás um jovem como você até nossa pacata cidade?

Arqueiro – Estou apenas de passagem, rumo ao norte...

Fazendeiro – Qual cidade ao norte pretende chegar?

Arqueiro – Apenas para o norte... – Diz olhando para o horizonte.

Fazendeiro – Filho, não entendi muito bem – acha meio estranho um jovem com um olhar daqueles - mas acho que você deveria procurar um pouco de comida e descanso antes de seguir sua viagem.

Arqueiro – Onde fica a estalagem?

Fazendeiro – Continue segundo em frente. A estalagem fica atrás do Salão Saxão. Amarre o seu cavalo e tome uma cerveja. Se a hospedaria estiver lotada, procure a minha casa. É humilde, mas tenho espaço para um forasteiro cansado.

Arqueiro – Obrigado.

Ele segue, passando ao lado do Salão Saxão do lorde e chega na estalagem. Amarra o seu cavalo, que começa a beber bastante água. Segue e adentra a estalagem. Está quase vazia, apenas os mesmos bêbados costumeiros, e dois ou três fregueses relaxando. Além de alguém com uma capa com capuz preto, que se mantém oculto.

Ele sabe que aquela pessoa oculta não combina em nada com o ambiente, mas não se mete. Resolve apenas observar e esperar para ver o que acontece. Depois de olhar toda a volta, avança para o balcão onde se senta esperando o dono da estalagem atendê-lo.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Distorção - Fenda celeste [1:1]

Naquela manhã de sexta-feira, o tempo parecia estar passando rápido, pelo menos era isso que Adam estava achando, já que tinha acordado tarde e estava atrasado para uma prova na faculdade. Era seu primeiro semestre em design gráfico e não queria fazer feio logo no começo. Tomou um banho rápido e se arrumou tomando café, essa era uma habilidade que ele tinha quando estava atrasado que sempre funcionava, creditando alguns minutos em seu pouco tempo limite que ele estipulava até sair de casa. Filho único, desde cedo teve que se virar sozinho em tudo, já que praticamente morava sozinho, pois seus pais sempre viajavam a trabalho e só apareciam nos finais de semana.

No ponto de ônibus, Adam aproveitou para dar uma estudada na matéria, pois tinha o péssimo hábito de deixar para estudar perto das provas. Sempre dizia que ia se consertar nisso, mas nunca se consertava. Enquanto estudava, ficava olhando para o relógio em seu pulso, aflito, pois já estava muito atrasado e seus minutos extras que tinha ganhado com sua técnica infalível já tinham se passado. Parou de estudar e começou a desejar que seu ônibus chegasse logo, até que ele finalmente chegou.

Ao subir, sentiu uma sensação estranha, um clima pesado. Afirmou para si mesmo que era coisa da sua cabeça e se sentou em um local próximo à janela, estava um pouco sem ar. Uma senhora sentou ao seu lado e perguntou se ele estava bem e ele acenou com a cabeça positivamente. Ao olhar para frente, percebeu que um homem o estava olhando fixamente. Desviou o olhar e quando olhou novamente, o homem continuava a olhar fixamente para ele. Havia algo de estranho no olhar daquele homem cujo rosto era meio sombrio. Assim que o ônibus parou em frente à sua faculdade, desceu apressado para fugir daquele olhar assustador. Por um momento tinha esquecido que tinha uma prova esperando por ele, mas quando se lembrou, correu mais rápido ainda.

Após a prova, Adam foi comer alguma coisa na lanchonete com seu melhor amigo. Seu nome era Guilherme e ambos se conheciam há mais ou menos oito anos. Ambos gostavam de computação gráfica e sempre um visitava o outro para trocarem idéias ou simplesmente jogar videogame, eram viciados em jogos, principalmente os de terror. Havia um certo fascínio da parte dos dois sobre o sobrenatural. Não conversaram sobre a prova, afinal ambos acharam ela muito fácil. O assunto da manhã foi outro.

Guilherme abriu a mochila e mostrou o jornal da semana para Adam. Em uma parte dele falava sobre uma mulher que tinha se matado:

“Ellen Strauss, 46 anos, esposa de Matthew Strauss, famoso estudioso morto misteriosamente há dezoito anos atrás, se suicida com uma mangueira no porão de sua casa. Vizinhos disseram que ela andava muito deprimida recentemente, mas não sabiam ao certo o motivo, provavelmente nunca superou o fato de seu marido ter morrido tragicamente. Próximo ao corpo havia uma página amassada do misterioso livro “Distorção”, que foi encontrado na mesma época do assassinato de seu marido. Ainda não se sabe como essa página foi parar no local, já que o livro sumiu no mesmo dia dos quatro assassinatos. O conteúdo da página não foi divulgado.”

Assim que acabou de ler a matéria, Adam foi para a biblioteca junto com Guilherme, que disse que tinha algo interessante para mostrar para ele. O conteúdo da aula seguinte poderia ser pego depois.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O Arqueiro - Jornada [1]

Continua seguindo sua viagem montado em seu cavalo, que se move tranquilamente entre as árvores do bosque. Não se ouve som de nenhum animal, a não ser do seu próprio companheiro quadrúpede, que galopa vagarosamente. Ele não tem pressa. Não sabe exatamente o local que está indo. Sabe apenas que está indo para frente.

Passam coisas em sua cabeça. Lembranças do passado que rodam como uma seqüência de imagens em sua mente. Algumas lembranças têm gosto amargo, pois são de coisas que o feriram. Outras são alegres, de momentos felizes que passou. As lembranças vagam em seus pensamentos constantemente, na medida qual o seu cavalo galopa lentamente.

Era pacato antes. Vivia quieto, sem incomodar ninguém. Procurava não ser rude para não ferir o sentimento dos outros. Tentava sempre a conversa. Mas com o tempo, percebeu que nem todos pensavam da mesma forma. Com as desilusões, aprendeu que por vezes é necessário ser rude, dizer não. Agora já não era tão ingênuo.

De repente um barulho o desperta. Procura em volta achando que poderia ser alguma emboscada montada por algum grupo de bandidos, mas logo percebe que é apenas um pássaro. A mãe levando alimento para os seus filhotes. Então começa finalmente a pensar para onde está indo. Não sabe como é o local, afinal será uma estadia em terras novas. Nunca tinha ido tanto para o norte. Conhecia apenas a sua região e seus arredores. Apesar de gostar de viajar, só o fez para poucos lugares. Mal sabia que ainda viajaria muito. E iria gostar disso.

Tomava rumo ao desconhecido, mas sem medo. Estava pronto para encarar os desafios que viessem a surgir. Tinha alma de aventureiro, de guerreiro. Começa a avistar a cidade através do espaço entre as árvores. Uma cidade pequena, parece pacata. A figura a princípio não o animava tanto, mas ele não poderia esquecer que todo o começo costuma ser pacato, assim como ele foi um dia.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Lacius - Na Fogueira [1:3]

Não demorou muito, já estavam os três na sala, discutindo sobre os problemas de Lúcio com o sono e sobre como isto estava interferindo nas duas últimas semanas do garoto.

Dr. Edgar ouviu tudo o que Mônica lhe contara com muita atenção. A expressão no rosto do psicólogo era difícil de se descrever. Apesar de estar atento ao que Mônica dizia, ele parecia estar com os pensamentos muito distantes. Ao findar a conversa com a mãe de Lúcio e se informar com o médico do menino a respeito do estado de saúde do mesmo, solicitou que o garoto fosse à sua sala antes de ir para casa.

Após o almoço tardio de Lúcio, Mônica o levou até a sala do psicólogo e ficou esperando do lado de fora, sentada num banco, ao lado de Jaqueline. Esta correra para o hospital assim que soube do acidente com o namorado. A ligação de Esteves interrompera seu almoço, mas, sentada naquele banco, ela não parecia estar com fome alguma. Tanta era a sua preocupação que esquecera-se totalmente que, há meia hora, ela tinha de estar no salão.

Dentro da sala, Lúcio estava sentado num sofá, de frente para a poltrona de onde Dr. Edgar fazia o seu interrogatório.

- Conte-me mais a respeito do teu sonho, Lúcio - pediu o doutor -. Como ele se inicia? Você se lembra onde está no momento inicial do sonho?
- Em uma sala. Não, é uma floresta - Lúcio forçava a mente, tentando lembrar do momento inicial do sonho -, eu acho - concluiu ele.
- E o que tem de especial nesta floresta? O que tem de especial nestas criaturas que você mencionou? - Lúcio já tinha contado a história ao doutor umas duas vezes, mas este ainda achava que haviam coisas que poderiam ser mais detalhadas.
- Eram animais estranhos. Nunca vi animais daqueles tipos. Eles podiam fazer coisas anormais, como sumir de um lugar e aparecer em outro.
- Anormais? - interrompeu, o doutor - Por que diz isto?
- Como algum ser humano poderia fazer assim? Nunca vi ninguém fazendo isto! - exclamou Lúcio, não entendendo o porquê da pergunta do doutor.
- Você diz "ser humano"? - Dr. Edgar o perguntou com um olhar profundo - Como são os animais do seu sonho?

Ao ouvir essa pergunta, Lúcio sente-se meio tonto e vê um flashback em sua mente.

A floresta da qual ele havia falado estava diferente de como recordava. As árvores eram como prédios. O chão parecia estar asfaltado. Era noite. Ele via o vulto dos animais passando. Um deles surgiu em sua frente e o olhou diretemante nos olhos. Ele tinha o tamanho de um rapaz. Tinha um tronco alto, braços fortes, cabelos castanhos. Era um...

Lúcio acordou do seu devaneio, se deparando com a profundidade dos olhos de Dr. Edgar. Ele se lembrara de como eram os seres que faziam parte do seu sonho. Cada detalhe daquele lugar agora estava nítido em sua memória.

- Eram homens - disse ele, finalmente -. Homens, mulheres e crianças.
- Interessante - resmungou o psicólogo -. E o que eles estavam fazendo na floresta?
- Não havia mais floresta. Eles estavam procurando algo. Ou alguém - Lúcio estava pensativo, tentando se lembrar o que realmente ele estava fazendo naquele lugar.
- Eles encontraram o que estavam procurando? - Dr. Edgar chegou um pouco mais para frente, para encarar o garoto - Encontraram, Lúcio? - repetiu, aumentando a interrogatividade da frase.

Mal o doutor terminou de falar, Lúcio ouviu dentro de sua cabeça uma voz que respondia àquela pergunta. O rapaz que havia surgido em sua frente o trouxera de volta às lembranças. Apesar da escuridão, os olhos claros do rapaz estava bem visível à sua frente. Mas, apesar da calma que tinha no olhar, a voz que saía de sua boca era dolorosa.

- Finalmente o encontramos. Nós precisamos de sua ajuda, irmão.

Mais e mais pessoas surgiam em volta de Lúcio. Algumas surgiam do céu. Outras, do chão. Haviam ainda outros que vinham correndo, tão velozes quanto um raio. Em poucos segundos, uma multidão o havia cercado. Todos com olhares de súplica. E, apesar de não estarem mechendo as suas bocas, Lúcio ouvia tudo o que eles queriam dizer. Ele agora sabia que era o único que podia ajudá-los.

Voltando, mais uma vez, à sala do psicólogo, Lúcio sentiu a cabeça doer. Não sabia como estava se lembrando de tudo aquilo. Parecia que seus pesadelos nunca tinham sido tão reais. Havia descoberto as respostas à pergunta de Dr. Edgar. Ele se sentia estranho. Olhava nos olhos do psicólogo e sentia que podia fazer o que quisesse. 

Após alguns segundos refletindo sobre o que se lembrara, finalmente respondeu ao doutor:

- Sim. Acharam. Eles finalmente me acharam!