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sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Distorção - Acontecimentos inesperados [4:2]

Adam estava ao lado do corpo de um homem morto que teve sua cabeça aberta do mesmo jeito que falava na reportagem dos assassinatos dos estudiosos que decifraram o livro “Distorção”. O cadáver tinha o crânio aberto pela parte de trás e não possuía cérebro. Por um momento, se esqueceu que estava sendo perseguido e saiu correndo do local. Ao sair do beco, se bate com um homem que ele já tinha visto. Não acreditava no que estava vendo, era o mesmo homem que saiu de uma misteriosa fenda no céu e caminhou sobre as águas em sua direção há dois dias atrás.

- Que jovem mais desajeitado... Está com algum problema? - Perguntou o homem misterioso com os olhos fixos nos olhos de Adam.

Adam estava sem palavras. Não sabia o que dizer. Os olhos que o miravam pareciam estar buscando alguma coisa relacionada com aquele acontecimento na praia.

- Des... Desculpe... Não vi o senhor... - Respondeu Adam sem jeito.
- Algo lhe assustou jovem? - Perguntou o homem o encarando.
- Não, eu só lembrei que tinha que fazer algo urgente.

Assim que Adam terminou de falar, ele ouve uma voz ao longe. Era uma voz familiar.

- Adam, o que você está fazendo aqui? - Perguntou Márcio que vinha em direção a ele.
- Eu estou indo ao mercado, me acompanha?
- Claro! - Respondeu Márcio olhando fixamente para o homem misterioso.
- Com licença senhor, tenho algumas coisas para fazer. Me desculpe pela minha falta de atenção. - Respondeu Adam aliviado.
- Sem problemas! - Respondeu o homem com um sorriso forçado no rosto.

- Quem era aquele cara estranho Adam? - Perguntou Márcio curioso.
- Eu não sei, sem querer esbarrei com ele. - Respondeu Adam sem entrar em detalhes.

Adam fez as compras com Márcio o mais rápido que pôde, afinal já tinha demorado muito na rua. Estava aliviado pelo fato de Márcio morar perto de sua casa e estar passando naquela rua em um momento tão importante. Estava profundamente grato a ele pelo simples fato de não gostar de ficar em casa.

Quando chegou em casa, sua mãe reclamou pela demora e disse que logo logo iriam passar na casa de Vanessa para pegar ela de carro para irem para a fazenda. Em resposta ao que sua mãe falou, ele disse que iria tomar um banho rápido e logo estaria pronto.

Ao entrar no quarto, Adam se jogou na cama e começou a lembrar do que lhe acabara de acontecer. Nunca tinha visto um cadáver e tão pouco um com o crânio aberto. Estava se sentindo mal. Levantou da cama e se debruçou na janela para tomar um ar. Ao olhar para a rua, viu que um homem estava parado em frente ao seu prédio com as mãos no bolso e olhando para cima. Era ele, o homem misterioso mais uma vez.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Ás de Ouros - Capítulo 2 [2:2]

Carlos e Edson entraram na cozinha. A cozinha era bem espaçosa, aberta e com muitos armários, balcões, panelas e eletrodomésticos ocupando todo o espaço nas paredes. Não havia mesa nem cadeiras.

Dois policiais estavam conversando em um canto e praticamente ignoraram a entrada dos investigadores.

Havia um corpo coberto no centro da cozinha. Edson se abaixou, puxou o pano que cobria o corpo e se levantou.

– Essa aí é a esposa – Edson apontava para o corpo no chão. ­– Solange Gusmão. Morreu do mesmo jeito que o segurança. Estrangulada.

O corpo de Solange estava próximo a pia. Carlos se abaixou para observar de perto. Colocou um par de luvas descartáveis que havia tirado do bolso e examinou a cabeça de Solange.

– Ela pelo menos parece que lutou mais bravamente pela sua vida – comentou Carlos. – E o assassino tomou o cuidado de deitá-la no chão. Não há sinais de pancada na cabeça devido a queda.

Edson foi até uma estante que continha uma pilha de livros de receitas. Pegou o primeiro e mostrou a Carlos.

O livro, intitulado Os Ricos Também Cozinham, tinha uma foto de Solange na capa segurando uma assadeira contendo cédulas de cem reais. Carlos julgou a capa como sendo um pouco arrogante. Edson folheou o livro.

– Uma cozinheira renomada morrendo na cozinha da própria casa. Que irônico, não? – disse Edson colocando o livro de volta no lugar. ­– Até ela deve ter rido disso enquanto morria.

Solange realmente parecia estar sorrindo, mas Carlos sabia que essa aparência era normal em vítimas de estrangulamento.

– Ok, agora vamos para o principal – disse Edson e foi andando para o corredor. – Você não vai acreditar no que vai ver.

Edson foi andando para a sala e Carlos se apressou para segui-lo. Enquanto andava pelo corredor que levava a sala, Edson ia comentando impressionado sobre cada item luxuoso ou obra de arte rara da casa, sempre enfatizando o quão Otávio e Solange Gusmão eram ricos. Carlos não estava prestando muita atenção ao que Edson falava e olhava para onde ele apontava apenas para confirmar com a cabeça e dar respostas curtas como “impressionante” e “ahã”, mas um quadro com uma mão saindo de uma nuvem e segurando um brilhante pentagrama prendeu a atenção de Carlos por alguns instantes.

Carlos parou e encarou o quadro por um tempo. Edson já estava mais a frente.

– Ei, Carlos, é por aqui! – chamava Edson.

E quando Carlos tinha dado um passo na direção de Edson, ele ouviu uma conhecida voz feminina atrás dele.

– Por que esses crimes nunca acontecem no nosso horário de trabalho?

Silvia era a principal perita criminal do Departamento de Homicídios. Com seus 35 anos, ela era uma das mais experientes peritas e já havia resolvido diversos crimes com a sua habilidade de perceber detalhes mínimos em cenas de crimes e que acabavam se tornando vitais na solução dos casos.

A perita tinha um andar arrastado e uma cara fechada. Era gordinha, usava roupas folgadas e não enxergava um palmo a sua frente sem os seus óculos. Silvia sempre estava com a máquina fotográfica em mãos, que ela mesma dizia que era o seu terceiro olho e tinha sempre um chiclete na boca.

– Desse jeito vocês acabam com o meu sono de beleza! – exclamava Silvia, cheia de trejeitos, ao passar por Carlos.

Carlos a seguiu. Edson ainda estava parado na sala.

– Sono de beleza? Você está precisando dormir mais – brincou Edson.

Silvia ignorou o comentário e apenas ficou mascando o seu chiclete e encarando Edson.

– Vamos, me mostrem logo a espetacular cena de crime que fez com que me acordassem para vir aqui.

Silvia sempre parecia estar com pressa.

– É logo ali – disse Edson apontando na direção do escritório.

Silvia passou por entre dois investigadores e foi na frente.

– Meu Deus, ela dorme mascando chiclete! – comentou Edson, quando Silvia já estava a três passos de vantagem.

Carlos respondeu apenas com um sorriso forçado.

– Santa mãe da cabeça raspada, isso é fenomenal! – exclamou Silvia ao entrar no escritório, em um de suas costumeiras expressões que ninguém entendia.

Carlos fez cara de espanto. Edson olhou para ele com um ar de satisfação.

– Viu que eu disse?

E então Carlos entrou no escritório, e ao entrar ele só teve uma reação:

– Que merda é essa?

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Lacius - O Fogo [5]

A multidão se aproximava, curiosamente, dos três alunos. Outros grupos, ao verem a multidão crescendo naquele lado, também estavam se encaminhando para verificar o que estava acontecendo. Todos pareciam querer ver a menina que chorava e o namorado que a segurava nos braços, tentando ampará-la.

Em meio à aglomeração e à bagunça que estava se formando, o olhar perspicaz de Esteves visualizou algo que, até então, passara despercebido. O livro que Lúcio ganhara de presente estava no chão, perto das cinza do antigo livro da biblioteca e completamente aberto.

A velocidade com que Esteves correu em direção ao livro, agarrou-o e o jogou, ainda aberto, dentro da mochila foi surpreendente. Nem Lúcio, que estava preocupado com a namorada, nem o restante do pessoal em volta, que estava tentando entender a situação, repararam em Esteves ou no livro que agora estava seguro, atrás das suas costas.

Alguns instantes depois do acidente, o barulho no pátio já estava demais, atraindo a atenção dos funcionários do colégio. Um curioso zelador que era responsável por aquela área atravessou a multidão e encaminhou os três "arruaceiros" à enfermaria, dispersando os demais que ainda se encontravam ali.

A enfermeira verificou se os três estudantes estavam bem, sendo bastante atenciosa com Jaqueline que se mostrava claramente mais abalada que os outros dois. Jaqueline reclamava das queimaduras nas mãos, apertando as mesmas e chorando de dor. A enfermeira, porém, ao verificar o local onde as queimaduras estariam, não encontrou ferimento algum, exceto uma vermelhidão causada pela força que a garota estava colocando nas mãos.

Esteves saiu da enfermaria em direção à sala de leitura, deixando Lúcio cuidando da namorada. Apesar de não estar ferida, a enfermeira estava administrando um medicamento calmante em Jaqueline, pois esta ainda estava muito nervosa com o susto. Os três se encontrariam mais tarde na aula de química.

Na sala de leitura, Esteves abriu a mochila e retirou o livro preto que continuava aberto e o colocou sobre a mesa. Folheou o livro rapidamente, tentando compreender a linguagem nele utilizada, mas o trabalho foi em vão. Os símbolos contidos no livro pareciam não fazer nenhum sentido para ele. Por todo o livro, Esteves não encontrou nada que lhe fosse familiar. Estava muito chateado por não ter termindado de ler o livro anterior e agora, mais chateado ainda por estar com o maldito livro aberto e não conseguir lê-lo.

Passados alguns minutos tentando encontrar alguma ligação nos livros, Esteves ouve o sinal tocar. A aula de química estava começando. Jogando o livro novamente dentro da mochila, ele vai em direção à sala de aula procurar pelos amigos que já se encontram lá com os demais alunos.

- Cara, o livro está em outra língua... - fala Esteves, mal-humorado para Lúcio.
- Ops... Jaque... você está melhor? - ele interrompe a si mesmo, lembrando-se que estava preocupado com a amiga Jaqueline.
- Estou bem. - responde ela no mesmo momento que Lúcio faz uma cara de desentendimento e o pergunta: - Que livro?

Porém, Esteves não tem tempo de responder à pergunta, pois o professor entra rapidamente na sala e informa, com pressa:

- Boa tarde, classe. Meu nome é Bóris. Sou o seu professor de química. Tenho um recado para os alunos Esteves, Jaqueline e Lúcio. A diretora quer vê-los na sala dela, com urgência.

Após o impacto da notícia, os três levantam e saem da sala em direção à diretoria, onde tentaram explicar à diretora o motivo do fogo em um dos livros da biblioteca. A diretora porém não estava acreditando muito naquela história. - Um livro não pegaria fogo sem motivos. Alguém precisa provocar o fogo para que ele aconteça. - explicava a diretora. Para ela, a história não tinha fundamentos. Onde estavam as marcas de queimadura que eles teimavam em continuar falando?

- Sinto muito, garotos, mas vocês não me deixam alternativas. Como não querem contar a verdade sobre o que aconteceu e como testemunhas afirmam que vocês são os responsáveis pelo ato de vandalismo no pátio, terei de suspendê-los.

Ao dizer isto, a diretora entrega três papéis com o comunicado de suspensão de dois dias para que os alunos encaminhassem aos pais para assinatura. Lúcio e Esteves receberam os papéis aborrecidos, mas não tanto quanto Jaqueline. Os olhos dela faiscavam de raiva. Ela estendeu a mão para agarrar a folha de papel porém, ao segurar o documento das mãos da diretora, o mesmo entrou em chamas, deixando todos eles completamente assustados.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Porque era ela Porque era eu - Glenda [1:1]

E o velho livro foi folheado mais uma vez, na busca pela única resposta que o satisfazia; o perfume da mulher que possuiu e amou por longos três anos. Os pedaços da flor que ela largou para trás amarelavam aquelas páginas como se o livro chorasse pela sua partida. Ali, ele entendeu que o amor ultrapassa todos os conceitos previstos e ditos desde o princípio da vida; amor não intitula, ele é auto-suficiente até mesmo em seus conceitos.

A garrafa do seu uísque favorito estava se acabando e não tinha ânimo nem para ir ao supermercado ou a um bar qualquer, o seu pretexto foi o cigarro, pois odiava sentir o cheiro da fumaça em seus móveis. Pegou a jaqueta, jogada na poltrona, e a chave do carro, abriu a porta e olhou para a bagunça que ela deixara, virou as costas e bateu a porta devagar.

Desceu as escadas sem perceber. Quando se viu, já estava empunhando a chave do carro no ato automático de destravá-lo; mudou de idéia e resolveu caminhar naquela tarde fria de um verão qualquer. Tão fria que lhe parecia inverno, com as mãos no bolso e cabeça baixa não percebeu quem passou por você e, continuou nos seus passos desolados. Tirou um único cigarro do bolso acompanhado do isqueiro, logo pensou que deveria ter comprado três maços ao invés de três cigarros. Mas isso o tiraria de casa mais vezes do que pretendia, desistiu da idéia.

Ela o fitava, via caminhar em direção ao nada e afundar os seus pulmões naquela fumaça densa que sai entre seus lábios. Virou-se de costas e continuou o seu caminhar.

Erick entrou no primeiro botequim que encontrou, o frio acabou deixando-o mais triste e pediu um copo de uísque. Mal sabia ele quem o observava de longe, olhos de lince, olhos de cobiça. Tomou o primeiro copo como quem engole um comprimido, numa velocidade que nem o gosto sentiu, pediu mais um e o segundo tomou mais devagar, a carcaça já estava aquecida.

Percebeu que alguém caminhava em sua direção, olhou para o lado e se deparou com a mulher mais sexy que poderia ter visto. Olhos marcados, boca vermelha e um apelo sexual que parecia envolver todos os homens, menos ele, naquele momento. Sentou-se ao seu lado, pediu mais um uísque, ela pediu um Martine.
Martine, bebida de mulheres que sabem o que quer ou que quer conquistar alguém, pensou. Erick sentiu algo macio tocar seu ombro, era a mão de Glenda:
– Olá, posso lhe fazer companhia? Está um dia muito frio para está só. - Ele consentiu com a cabeça somente para não ser indelicado o que queria mesmo era distância de qualquer pessoa que tentasse ser simpático para conquistá-lo.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Distorção - Acontecimentos inesperados [4:1]

Adam acordou ouvindo a voz de sua mãe dando pressa ao seu pai para arrumar as coisas para a viagem. Não demorou muito e ela já estava em seu quarto falando as mesmas coisas para ele. Enquanto isso, Jorge foi atender a porta, alguém tinha chegado.

- Ora, Vanessa, entre! - Convidou Jorge um tanto surpreso.
- Como vai o senhor?
- Eu vou bem, obrigado.
- Adam está em casa?
- Sim, ele está no quarto dele.
- Vanessa querida, há quanto tempo! - Exclamou Marta entrando na conversa.
- Oi dona Marta, posso falar com Adam?
- Pode sim querida, só não demore porque ele tem que arrumar a mochila. Estamos viajando daqui a pouco.
- Está certo. - Respondeu Vanessa um tanto desapontada.

Ao chegar perto do quarto, Vanessa percebeu que a porta estava entreaberta e entrou calmamente. Viu Adam de costas arrumando a mochila e se emocionou.

- Adam! - Exclamou ela apreensiva.
- Vanessa, o que faz aqui?! - Perguntou Adam surpreso.
- Eu queria conversar com você. Pra falar a verdade eu preciso conversar com você.
- Pode falar...
- Eu andei pensando nesses últimos meses e cheguei à conclusão de que não podemos ficar separados. Será que a gente poderia começar tudo de novo? - Perguntou Vanessa meio sem jeito.
- Será que você conseguiria arrumar sua mochila em meia hora e viajar comigo? - Respondeu Adam com um tom irônico.

Vanessa sorriu e acenou com a cabeça positivamente. Sem perder mais nem um minuto, saiu para arrumar suas coisas. Estava feliz, pois não imaginava que teria uma nova chance com seu ex-namorado que ela sempre amou.

- Adam, enquanto Vanessa foi em casa, passa ali no mercado e compra algumas coisas que eu anotei aqui no papel pra gente levar para a viagem. - Pediu Marta terminando de fazer a lista.
- Certo, deixa eu só terminar de arrumar a mochila.

Assim que terminou de arrumar suas coisas, Adam desceu correndo para o mercado. Não podia medir a sua felicidade naquele momento. Felicidade essa que logo se transformou em aflição quando virou a esquina. Percebeu que tinha dois homens seguindo ele. Quando se deu conta, viu que havia um terceiro já à sua frente. Em um movimento rápido, Adam consegue correr dos bandidos e acaba tendo que pegar outro caminho para despistá-los. Rapidamente, entra em um beco e se esconde atrás de umas caixas. Ao olhar para o lado, se assusta ao ver algo que jamais imaginaria ver.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Ás de Ouros - Capítulo 2 [2:1]

Pouco tempo depois de receber a ligação, Carlos se encontrava na entrada do Condomínio Residencial Royal. Provavelmente o segurança já estava habituado com o número de pessoas que estavam entrando e saindo ali hoje, pois ele levantou a cancela sem ao menos olhar para o distintivo de investigador que Carlos erguia na mão.

Carlos entrou no condomínio e enquanto dirigia, notou que muitas das residências estavam com suas luzes internas acessas.

Até os ricos são curiosos.

A área interna do condomínio era bem grande e Carlos dirigiu por quase um minuto até avistar uma residência com uma ambulância e carros da polícia parados na frente.

Alguns moradores estavam no local, trajando roupões e com cara de horrorizados. Mesmo com o ruído que havia no local, era possível escutar latidos de cachorros vindos do fundo da mansão. E encostou o carro e observou aquelas pessoas por alguns instantes.

Ele se aproximou da portaria da residência, exibindo o seu distintivo a alguns policiais. Ao passar pelo cordão de isolamento, avistou Edson, um investigador criminal de 39 anos e de aparência simpática.

– Por que esses homicídios nunca ocorrem no horário do expediente? ­– brincou Edson ao perceber Carlos parando ao seu lado.

Carlos apenas deu uma risada discreta.

– O que temos aqui?

– Ah, o de sempre. Assassino invade mansão de um banqueiro, mata o milionário, sua mulher, o segurança da casa e foge sem levar nada – respondeu Edson em tom ironia.

– Aparentemente, sem levar nada – completou outro investigador que vinha se aproximando.

Luís Fernando tinha 33 anos e era o investigador mais novo da delegacia de homicídios que Carlos trabalhava. Tinha um jeito meio arrogante e costumava terminar a frase dos demais investigadores fazendo uma observação, quase sempre irrelevante.

– Nós demos uma checada na casa e parece que está tudo no lugar. A nossa primeira hipótese foi a de um crime encomendado, mas você precisa ver como as coisas estão lá dentro da mansão. Estão bem... – Luís Fernando procurou a melhor palavra para usar – interessantes.

– E alguém viu o assassino entrar ou sair? ­– perguntou Carlos, olhando para a guarita.

– Até agora nenhum morador disse ter visto nada – respondeu Edson. – E eu acredito neles. Aqui vive cada um cercado em seu mundinho de quatro paredes e estão sempre ocupados de mais para notar que um vizinho foi assassinado.

– Então quem chamou a polícia?

– O segurança da mansão ao lado. Ele notou que os cachorros estavam latindo muito, então ele veio checar se estava tudo bem. Ele viu que os cachorros estavam arranhando a porta da guarita, como se quisessem entrar, e foi aí que ele encontrou o defunto.

Carlos olhou rapidamente para o segurança, que estava conversando com um casal, provavelmente os seus chefes.

– Silvia ainda não chegou? – perguntou Luís Fernando, tirando um maço de cigarros do bolso.

– Ainda não – respondeu Edson e logo acrescentou. ­– Deve estar em algum bar gay por aí.

Luís Fernando tirou um cigarro do bolso e foi para um canto isolado. Carlos e Edson entraram na guarita.

Carlos fez cara nojo ao ver o corpo do segurança morto caído no chão e com um pedaço generoso de sanduíche de bacon na boca.

– Se não fosse pela marca no pescoço, eu acreditaria que esse cara morreu engasgado com o sanduíche – disse Edson, puxando a gola da camisa do segurança para exibir as linhas vermelhas no pescoço que indicavam enforcamento. – Seria impossível ocorrer uma briga aqui dentro. Pouco espaço. É possível que ele tenha sido assassinado pelas janelas ou do lado de fora e depois o assassino colocou o corpo aqui dentro. Provavelmente, para não chamar a atenção dos cachorros. O problema foi que ele deixou o sanduíche cair bem aí na entrada, ao lado de seu pé esquerdo. E com tanto bacon nesse sanduíche, qual cachorro não estaria derrubando portas?

Carlos deu um passo para o lado quando percebeu que havia pisado num bacon no chão.

­– E as câmeras de vigilância?

– Desligadas. Parece que o assassino sabia o que estava fazendo. É claro que o assassino estava usando luvas, mas vamos recolher digitar apenas por desencargo de consciência – disse Edson se levantando. – E também porque em um caso desses nós temos que dar satisfações a imprensa também, você sabe como é.

Carlos e Edson saíram da guarita e foram andando em direção a mansão. Os cachorros não paravam de latir.

– Não sei como esse cara conseguiu driblar os cachorros – comentou Edson.

– Esses cachorros se vendem por qualquer pedaço de carne.

Ao se aproximar da casa, Edson começou a andar pela grama indo em direção ao fundo da casa.

– Primeiro vamos para a cozinha. Vou deixar o melhor para o final – Edson deu uma piscadela de olho sádica.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Lacius - O Lácio [4]

Após ouvirem a voz de Marcos que vinha da porta, todos os alunos se viraram em direção a ele. Pareciam assustados ao ver aquele enorme rapaz de quase dezessete anos, forte e bonito entrar na sala de aula.

- Entre, meu rapaz - disse o professor Robson, um pouco preocupado com a administração do tempo de aula -. Já estamos na metade da aula. Se não conseguir entender algo, pode me perguntar no final.
- Obrigado, professor. - respondeu Marcos, esbanjando cortesia.
- Pensando melhor - interrompeu Robson -, você gostaria de me ajudar? Como você já está de pé, poderia vir e tentar separar estas duas barras - Robson mostra as barras presas às baterias de celular -. Preciso que a turma perceba o quão isto aqui está preso.

Marcos foi caminhando até a mesa na frente da sala e segurou as barras de ferro. Olhando fixamente para o professor, ele levantou as duas barras e as separou, sem nenhum esforço. Ainda olhando para Robson, que estava com uma cara de espanto indescritível, Marcos colocou as barras novamente em cima da mesa, espaçadas por mais de dois palmos, e deu meia volta, indo se sentar no seu lugar. Enquanto procurava um lugar vazio para se acomodar, o som dos metais se juntando foi ouvido mais uma vez, após as barras se encontrarem percorrendo uma distância razoável sobre a superfície da mesa.

Enquanto Marcos caminhava em direção à única cadeira vazia da sala, ele conseguiu perceber alguns rostos de espanto e vários comentários sussurrantes dos colegas de classe:

- Uau! Como ele é forte. - susurrou Jéssica para Angélica, tentando não fazê-lo ouvir.
- Como ele está diferente - Pedro disse para Gabriel -. Pensei que tinha ficado louco.

Após esta demonstração de força, a participação de Marcos durante o resto da aula foi bem ativa. O professor o requisitava com freqüência para auxiliá-lo com a montagem e execução de quase todos os experimentos. Marcos, por sua vez, representava bem a turma, mostrando-se prestativo e ajudando no que era preciso.

Depois da excitante explicação do último experimento que restava sobre a mesa, o sinal para o intervalo tocou, encerrando a aula e liberando os alunos para o almoço. A próxima aula seria a de química e aconteceria às duas horas da tarde. Os alunos teriam tempo suficiente para almoçar e descansar para a última aula do dia.

Ao tocar o sinal, Lúcio arrumou a sua mochila e levantou-se rapidamente para ir falar com o primo, mas este parecia estar com tamanha pressa que já não estava mais na sala. Marcos parecia estar muito diferente - pensou Lúcio -. Não parecia o mesmo que deixara aquela escola no ano anterior devido problemas de saúde. 

Jaqueline e Esteves puxaram Lúcio pelo braço e saíram correndo da sala em direção ao refeitório. Não queriam perder nem um segundo do tempo que tinham para desvendar o mistério do presente que este ganhara do Dr. Edgar.

Depois do farto almoço e de Esteves repetir o prato, os três alunos saíram em direção ao pátio da escola. O lugar era enorme, com um gramado verde, onde os alunos ficavam dispersos entre as árvores e os bancos de madeira espalhados pelo local.

Se jogaram de qualquer modo sobre o gramado, debaixo de uma árvore um pouco afastada da multidão e recolheram os livros de dentro da mochila de Lúcio. Esteves abriu o livro que tinham pego na biblioteca e começou a lê-lo.

O livro utilizava uma linguagem arcaica, mas, com esforço, os três estavam conseguindo entender a maior parte do que liam. "A maior guerra do Lácio" se tratava de uma história de um povoado antigo que vivia na região do Lácio e que era dotado de habilidades especiais. Os habitantes desta região tinham o poder de controlar os elementos da natureza de acordo com a sua vontade e, por isso, muitas vezes eram cultuados como deuses pelos povos das regiões vizinhas. Na verdade, eles tinham um pouco de deuses, pois, com todo poder que tinham, eram responsáveis por equilibrar as energias existentes no mundo, evitando que este entrasse em colapso.

Esteves estava lendo o livro em uma velocidade sobre-humana. Já era complicado entender as expressões utilizadas naquela difícil linguagem, lendo naquela velocidade então, ficava absurdamente impossível compreender. A sorte de Jaqueline foi que, durante uma pausa para respirar, ele olhou rapidamente para ela e viu no rosto dela uma expressão de total desentendimento. Quase três quartos do livro fora lido e nem Jaqueline, que tentava acompanhá-lo na leitura, nem Lúcio, que estava entretido observando detalhes no outro livro, estavam entendendo do que o livro realmente falava. Esteves então tentou explicar:

- Está faltando muitas páginas no livro, mas deu para sacar qual é a história por trás da guerra. Um jovem muito poderoso chamado Damian que estava sendo treinado para ser o novo líder dos Lacius era apaixonado pela Darice, neta do, até então, líder do povoado. A moça estava prometida para se casar com ele, porém, quebrando as regras estabelecidas pelos seus ancestrais, Darice foge do povoado e casa-se com um humano normal. Então, Damian, sedento por justiça, enfrenta Eiros, o líder, e declara guerra aos humanos e a todos os que estiverem no caminho.

Jaqueline não acreditou que naquele curto espaço de tempo Esteves tenha lido aquela história toda, assimilado e feito um resumo da obra para eles. Ela pegou rapidamente o livro da mão dele para ter certeza de que tudo o que ele falara estava realmente ali, mas, no instante em que ela tocou no livro, sentiu um calor muito forte em suas mãos e instintivamente jogou o livro para o alto, agitando as mãos enrubrecidas. O livro saiu das mãos de Jaqueline feito uma bola de fogo e, em poucos segundos, se transformou em cinzas. Os três amigos saltaram para trás assustados ao ver aquela labareda consumindo o livro que estavam lendo.

Todos os alunos presentes no pátio viram o clarão que vinha da árvore em que Lúcio estava com a namorada e o melhor amigo. Lúcio estava com a cabeça doendo e tão preocupado com Jaqueline, tentando protegê-la dos olhares de todos que os cercavam, que nem percebeu que o livro que recebera de presente estava caído atrás dele, próximo às cinzas espalhadas pelo chão e totalmente aberto.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Distorção - Retrocesso temporal [3:2]

Assim que Guilherme decidiu ir embora, Adam ouviu alguém batendo na porta. Quem poderia ser uma hora daquelas? Por um momento seu coração bateu forte, mas logo se acalmou ao ouvir a voz de sua mãe. Seus pais tinham chegado de viagem. Mesmo confuso, os abraçou bem forte assim que entraram. Sentiu uma enorme vontade de chorar, mas se segurou, não queria preocupar eles. Guilherme se despediu e foi embora. O pai de Adam sentou na cama e foi fazer um telefonema, enquanto sua mãe veio conversar com ele.

- Nós viemos mais cedo porque adiantamos nosso trabalho e queríamos fazer algo especial neste fim de semana. - Explicou Marta ao filho.

Assim que Adam ouviu o que sua mãe disse, ele confirmou que estava vivendo pela segunda vez o mesmo dia. Apesar de ainda não entender o que estava acontecendo, decidiu esquecer um pouco tudo o que ele passou nas duas sextas.

- Nós vamos passar o fim de semana na casa de sua tia Vânia lá na fazenda. - Afirmou Jorge ao filho após desligar o telefone.
- Vai ser bom para relaxar um pouco. - Completou Marta.
- Sua tia vai fazer aquela lasanha especial e você ainda vai poder rever seus primos do Rio de Janeiro que chegaram lá ontem. - Concluiu Jorge.

Após ouvir o que seu pai disse, Adam se perguntou se o ontem que foi mencionado foi quinta-feira ou a sua primeira sexta-feira. Estava confuso. Decidiu não falar nada para seus pais, até porque aquela história era muito cansativa para se explicar, não queria preocupá-los. Além do mais, certamente não iriam acreditar.

Adam passou a noite conversando com seus pais e até assistiram a um filme. Ele percebeu naquele dia o quanto eles eram necessários em sua vida. Estava se sentindo muito feliz. Era como em uma daquelas vezes quando criança, que quando era seu aniversário, seus pais lhe levavam para o parque à noite. As luzes dos brinquedos enchiam seus olhos de alegria e faziam seu coração bater forte. A rotina tinha feito ele se esquecer desses pequenos momentos de grande emoção.

Na hora de dormir, antes de se deitar, Adam olhou a cidade da janela. Era uma vista legal, já que morava no oitavo andar de um prédio a uma certa distância da praia. Fixou o olhar mais ou menos onde estava na areia no dia anterior, respirou fundo e com a voz meio rouca prometeu que resolveria aquela situação de qualquer maneira, enfrentando o que fosse necessário. Ele sabia que aquilo que aconteceu não terminaria daquela forma, muito pelo contrário, só estava começando.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O Arqueiro - O hóspede tem nome [3:2]

Já do lado de fora, Anne Marrie não deixa de ouvir e sorri discretamente, enquanto caminha a frente de todos. Depois diminui o passo, para esperar o forasteiro, que está soltando as amarras do cavalo para levá-lo consigo até a fazenda dos Farmship.

Anne Marrie – Você aprece ser realmente diferente dos outros.

Arqueiro – Ninguém é igual a ninguém. – responde, enquanto caminham a passos lentos.

Anne Marrie – Você tem nome?

Arqueiro – Tenho.

Passam-se alguns segundos em silêncio, com Anne Marrie olhando para o forasteiro, que por sua vez olhava para frente.

Anne Marrie – E então, não vai me dizer seu nome?

Arqueiro – Não.

Anne Marrie – Mas por quê?

Arqueiro – Porque você não me perguntou.

Anne Marrie – Perguntei sim! Você é doido mesmo não é?

Arqueiro – Não sou doido. Você perguntou se eu tinha nome, e não qual era.

Anne Marrie – Então, qual é o seu nome? – Pergunta franzindo a testa. Apesar do modo de falar, a garota queria saber cada vez mais do tal sujeito do cavalo.

Arqueiro – Archer. Ludwell Archer.

Anne Marrie – Posso te chamar de só de Ludwell?

Ludwell – Não.

Anne Marrie – Nossa, você é chato hein? Por que não posso?

Ludwell – Sim, eu sou chato. E você não pode porque você tentou roubar meu cavalo.

Anne Marrie – Me desculpe. – Diz a garota antes de soltar o ar de seus pulmões enquanto gira em torno de si mesma, e continua – Mas esse lugar aqui é um tédio. Não tenho nada para fazer. Eu preciso sair daqui. Conhecer novas terras!

Ludwell – Viajar não é tão simples.

Anne Marrie – Mas é o que eu quero. O que eu preciso. E então, o que me diz de me levar com você?

Ludwell – Não.

Anne Marrie – Por favor!

Ludwell – Não. Agora continue andando. Não quero me afastar dos seus pais.

Anne Marrie – Seu chato.

E eles continuaram caminhando, atrás do casal Farmship, em direção a sua fazenda. Anne Marrie de cara emburrada, e ele com a mesma expressão no rosto de sempre.


quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Ás de Ouros - Capítulo 1 [1]

Era meia noite e Carlos entrava em seu apartamento praticamente na ponta dos pés. Fechou a porta o mais silenciosamente que pôde, mas não conseguiu evitar o barulho da maçaneta ao largá-la. Ele prendeu a respiração durante alguns segundos, como se esperasse por alguma reação, que não aconteceu. Respirou aliviado.

Praticamente deslizando pelo chão, Carlos colocou o molho de chaves em cima da mesa da cozinha, e após beber um copo de água, dirigiu-se ao banheiro levando consigo a sua sacola preta de alça. Jogou a sacola surrada em cima do vaso sanitário e se despiu largando as roupas no chão do banheiro.

O primeiro jato de água quente que acertou o seu rosto o imobilizou. Carlos ficou alguns instantes com os olhos fechados, respirando fundo e apenas sentindo a água escorrendo por seu corpo. Carlos não era muito alto e tinha o físico do tipo atlético, resultado dos 15 anos de judô que praticou. Agora, com os seus 44 anos de idade, ele já não possui mais interesse em praticar esportes e sua única atividade física se resume a corridas matinais em dias aleatórios na orla da praia, que servem mais para aliviar o estresse do dia-a-dia que manter a forma. Carlos nunca colocou um cigarro na boca e não bebe um copo de cerveja desde a adolescência, e talvez por isso sua aparência ainda seja de uma pessoa na faixa dos 30 anos. Tinha uma cicatriz na parte direita da barriga de quando foi vítima de uma facada ao cometer um erro crucial nos seus primeiros anos como investigador de polícia e que quase lhe custou a vida. Os médicos disseram que ele tinha sorte em ter sobrevivido. Desde então ele aprendeu a nunca dar as costas a ninguém.

Carlos entrou no quarto se preocupando menos em não fazer barulho. Sua esposa, Tereza, estava deitada na cama, virada para a janela (e de costas para ele), em posição fetal e respirando fundo. Ele sabia que ela não estava dormindo, mas que continuaria fingindo até a hora que ele se deitar. Carlos sabia que Tereza desconfiava que ele tivesse uma amante, mas que ela não falaria nada até ter certeza. E os dois sabiam que esse jogo de fingir ainda iria durar algum tempo.

Carlos colocou a sacola na parte alta do guarda roupas, o celular na mesinha de cabeceira, apagou a luz do quarto e deitou-se na cama, de costas para esposa. Instantaneamente, Tereza se mexeu na cama e Carlos deu um sorrisinho como se dissesse “eu já sabia”.

Tereza murmurou alguma coisa, que Carlos ignorou. Estava muito cansado. Fechou os olhos, mas cinco segundos depois o seu celular tocou.

Puta que pariu, a essa hora?

Foi o único pensamento que passou na cabeça de Carlos.

Sem abrir os olhos, Carlos tateou e pegou o celular. Atendeu sem olhar quem era.

– Alô – sua voz saia quase que forçada.

A voz do outro lado da linha falou algo e Carlos arregalou os olhos.

­– Quem? – falou agora em voz alta. – Oh, meu Deus!

Tereza não podia mais fingir que estava dormindo. Ela se espalhou na cama ao mesmo tempo em que Carlos se levantava.

– Já estou indo para o local – falava Carlos enquanto vestia uma calça. – Sim, sim, eu sei onde fica.

Desligou o celular e olhou para Tereza, que estava deitada na cama o observando.

– Desculpe-me, amor, eu não queria te acordar.

Carlos mal percebeu a ironia de sua frase.

– Tenho que ir, é uma emergência.

E saiu apressado.

Tereza deu um suspiro na cama e resmungou pra si mesma:

– Como sempre.